"Cinema Paraíso" - artigo de Hugo Tiago (Cine-Clube da Ilha Terceira)

 


Cinema Paraíso

Procurei o significado preciso do termo “cinefilia” e encontrei “forte interesse ou entusiasmo pelo Cinema”. Encontrei também “gosto pelo cinema e o interesse demonstrado por tudo aquilo que se relaciona com a sétima arte. Quem se interessa pelo cinema é considerado cinéfilo”.

E desde há muito que o Cinema assumiu a cinefilia como tema, como objeto de análise ou como cenário onde se desenrolam as mais diversas histórias.

Buster Keaton interage com o ecrã de cinema em "Sherlock Jr". Logo em 1924, Billy Wilder colocou a sua Norma Desmond a queixar-se de o cinema se ter tornado pequeno no “Crepúsculo do Deuses”, em 1950, Gene Kelly interpreta uma estrela de Hollywood dançante em “Serenata à Chuva”, no ano de 1952, Betty Davies e Joan Crawford mostraram-nos “O que teria acontecido a Baby Jane?” Em 1962,  Robert Zemmeckis deu-nos Roger Rabbit (e a sua Jessica) em “Quem Tramou Roger Rabbit”, de 1988.

Temos até géneros cinematográficos fundados em alicerces cinéfilos, como o Western Spaghetti. Quando os estúdios americanos trouxeram para a europa (primeiro Itália, e mais tarde Espanha) as suas produções mais baratas, deixaram no terreno os meios que mais tarde iriam ser utilizados no retomar de um dos géneros mais antigos no cinema, feito com uma reutilização da linguagem dos antigos mestres. E até chegaram à paródia (“Trinitá, Cowboy Insolente”), estabelecendo um novo paradigma para o género (Sérgio Leone, com Enio Morricone nas bandas sonoras).

No campo da comédia, encontramos com frequência filmes que parodiam outros filmes, como os trabalhos da equipe conhecida como ZAZ (Zucker, Abrahams, Zucker), que nos trouxeram, “Aeroplano”, “Top Secret” ou a série “Aonde Pára a Polícia?”.

Ou seja, a cinefilia no Cinema não começou no ano passado com o “Era uma Vez em Hollywood”, de Quentin Tarantino.

Aliás, Tarantino há muito que trabalha essencialmente nas memórias do cinema, sejam os Western Spaghetti (“Django Libertado”), os thrillers passados durante a segunda Grande Guerra (“Sacanas sem lei”), ou os filmes de ação de Hong Kong (“Kill Bill”). Até mesmo o seu segmento no "Quatro Quartos" é uma homenagem a um dos mais famosos episódios da “Série Hitchcock Apresenta: The Man From Rio”. Num grande filme de Tony Scott, “True Romance”, com argumento original de Tarantino, temos um final a reencenar o final de “O Bom, o Mau e o Vilão”, De Leone. Assim como o “Pulp Fiction” está cheio de referências cinéfilas (lembrem-se das várias coisas em que Bruce Willis pega, depois de se soltar e antes se entrar pela porta que se mantinha fechada).

De qualquer forma, enquanto autor de cinema com obra assente na cinefilia, importa não esquecer que Brian de Palma fazia já há mais de 20 anos o que Tarantino faz hoje (sem o mesmo jeito para as bandas sonoras, é certo!).

Mas voltando à cinefilia, o Cine-Clube da Ilha Terceira escolheu para a rentrée da Recreio dos Artistas um filme que é a quinta-essência da cinefilia no grande ecrã: “Cinema Paraíso”, de Giuseppe Tornatore.

No final dos anos 80, um realizador italiano recebe um telefonema, dando-lhe nota do falecimento de um amigo. Regressa à sua Sicília natal, e a história da sua vida é-nos contada em flashback. Em criança havia sido iniciado no ofício de projecionista no cinema local, assistindo aquele que viria a ser o seu grande mentor, e a quem vinha agora acompanhar à sua última morada.

O espectador vai vivendo assim o dia-a-dia de uma pequena terra de província (e numa ilha, ainda para mais), e vai assistindo à evolução do cinema, seja aquilo que vai sendo projetado no ecrã seja a forma como os espectadores o vivem.

Ainda que as últimas imagens do cinema sejam já de decadência (edifício encerrado e vestígios dos últimos filmes exibidos: filmes pornográficos), “Cinema Paraíso” é um filme onde se sente uma nostalgia gloriosa, e uma verdadeira gratidão por tudo aquilo que o Cinema nos dá.

Outros notáveis filmes sobre o cinema deram-nos visões pessimistas (“O jogador”, Robert Altman, 1992) ou cínicas (“Get Shorty”, Barry Sonnenfeld, 1995), ou essencialmente autobiográficas (“Fellini, 8 ½”, Federico Fellini, 1963; “Dor e Glória”, Pedro Almodóvar, 2019), mas com este ponto de cinefilia e otimismo, só, talvez, “O Artista” (Michel Hazanavicius, 2011 – Óscar de melhor filme).

Tornatore voltou ainda à cinefilia com “Malena”, com Monica Belluci, mas não conseguiu repetir o estado de graça de “Cinema Paraíso”.

Um outro filme sobre filmes é o “Recordações de Hollywood” (Mike Nichols, 1990), baseado nas memórias de Carrie Fisher (sim, a Princesa Leia, da “Guerra das Estrelas”), filha de Debbie Reynolds (a atriz do já aqui citado “Serenata à Chuva”). Meryl Streep interpretou o papel da biografada e Shirley Maclaine o papel de sua mãe. Entre os vários pontos memoráveis deste filme temos Shirley Maclaine a interpretar um número musical intitulado “I’m Still Here”.

E é nesta cena que penso quando escrevo a propósito da rentrée da Recreio dos Artistas, instituição fundada em 1877. Já passaram várias revoluções, diferentes formas de governo, epidemias de vária ordem, deportados chegaram e partiram e até sobreviveu a um terramoto.

A Recreio dos artistas ainda cá está, para nosso contentamento, e para nos mostrar bom cinema.      

Hugo Tiago

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