Comportem-se Como Adultos, um filme de Costa-Gavras | Hugo Tiago

Existem muitos exemplos de cinema político, ou mesmo de ficção televisa, e não é de agora. Seja por via do registo biográfico, como forma de homenagear determinada personalidade e de, simultaneamente, retratar uma época ou um determinado evento, ou como pura ficção romantizada, para que os autores avaliem indiretamente uma determinada realidade política e, ao mesmo tempo, falem daquilo que os preocupa. Gregory Peck como Douglas Macarthur, Daniel Day Lewis como Abraham Lincoln ou Anthony Hopkins como Richard Nixon - pelas mãos de, respetivamente, Joseph Sargent, Steven Spielberg e Oliver Stone - serão bons exemplos da primeira categoria; e as séries “West-Wing” (EUA), “Borgen” (Dinamarca) e “Les Hommes deL`Ombre” (França) serão bons exemplos (televisivos) da segunda. O filme que no domingo poderemos ver na Recreio dos Artistas representa uma espécie um pouco diferente: o próprio protagonista de um episódio relevante da história recente escreve sobre os acontecimentos em causa e essa história é levada ao grande ecrã. Temos assim o relato de Yanis Varoufakis, ex-ministro das finanças grego, dos acontecimentos decorridos entre a eleição do governo do Syrisa e a sua demissão do governo. Conta a história da batalha que travou contra a ortodoxia da União Europeia, a propósito da crise da dívida soberana que tanto massacrou o seu país (e o nosso). E por se tratar de acontecimentos que também nos tocaram, em relação aos quais todos teremos as nossas opiniões, tentarei manter este texto no campo do cinema. Mas, para aqueles que possam ser tentados por relatos alternativos, ou teorias da conspiração, vejam “Bem-Vindo a Nova York”, de Abel Ferrara, com um Gérard Depardieu em grande forma. Quanto ao “Comportem-se Como Adultos”, encontraremos um relato escrito por alguém que terá perdido aquela batalha, mas que pretende vir a ser julgado favoravelmente pela História. E se é certo que não encontramos com frequência grande talento literário em líderes políticos (Winston Churchill ou Václav Havel serão alguns dos poucos exemplos, este último mais um escritor - dramaturgo - talentoso que se tornou político), a verdade é que temos aqui uma história bastante bem contada, não caindo em tentações maniqueístas ou panfletárias. E para nos trazer ao ecrã esta história tivemos um dos grandes realizadores de cinema com cariz político da história, o grego Costa-Gavras. Desde “Z- A Orgia do Poder” (1969), a história do assassinato de um oposicionista durante a ditadura grega (chamada “dos Coronéis”), que Costa-Gavras nos tem apresentado filme após filme, capaz de mexer com a nossa consciência política. Em 1970 estreou “A Confissão”, relato de um funcionário público checoslovaco caído em desgraça, embora se tivesse mantido toda a vida um fiel militante comunista. Em 1972, tivemos “Estado de Sítio”, sobre o conflito entre o Governo do Uruguai e o movimento guerrilheiro “Tupamaro”. Em 1982 surgiu “Missing – Desaparecido”, sobre o Chile de Pinochet. Jack Lemmon e Sissy Spacek vão a Santiago tentar localizar o filho, e marido, desaparecido durante o golpe de 11 de setembro de 1973. O filme é particularmente interessante ao mostrar a evolução de Jack Lemmon, um americano de classe média conservador, à medida que se vai apercebendo do facto de o seu filho ter sido vítima de uma monstruosidade, da qual o Governo Americano foi cúmplice.Os Óscares de melhor ator e atriz foram atribuídos a Jack Lemmon e a Sissy Spacek por este filme. Em 1988 e 1989 Costa-Gavras voltou aos Estados Unidos para nos dar “Atraiçoados” (história relacionada com os movimentos pela supremacia branca), e "Music-Box – O Enigma da Caixa de Música" (Jessica Lange é uma advogada chamada a defender o próprio pai da acusação de ser um criminoso de guerra nazi, obtém a sua absolvição, para de seguida descobrir que era tudo verdade). Mais exemplos poderia aqui apontar (“Paraíso a Oeste” ou “O Capital”), mas importa ainda falar de “Comportem-se como Adultos”. Ainda que possa ser simplista nalguns aspetos (passamos por cima da origem da crise da dívida soberana, ou as razões do excessivo endividamento Grego), a história é bem clara na mensagem de a Grécia ter sido vítima da ortodoxia europeia, totalmente controlada pela Alemanha, sendo que era imperativo não permitir que um governo de esquerda contrariasse a teses económicas dominantes. A teoria do dominó foi repescada, para um contexto de tecnocracia económica. Por último, o espectador não deverá estranhar a última sequência do filme, com o Primeiro-Ministro Grego a bailar pelos corredores vazios das instituições europeias. Uma sequência metafórica num filme realista pode por vezes ser estranha (lembrem-se do grilo por trás do trono em “Último Imperador” – Bertolucci - ou as sapatilhas All-Star no guarda-roupa de “Marie-Antoinette” - Sofia Coppola), mas está lá com um determinado significado. Descubram-no este domingo, na Recreio dos Artistas. - HT __ 11 outubro, 18h00 | Sala Recreio dos Artistas

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